domingo, 24 de agosto de 2014

TRANSGENICOS PARA QUEM? (1)


A partir de hoje iniciamos a publicação de textos do livro do MDA que, infelizmente, não está sendo divulgado pela mídia comprometida com as multinacionais e, tampouco discutido na universidade brasileira, muito menos nas faculdades de agronomia do Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso principais estados que estão plantando soja e milho transgênicos. Eis o primeiro texto:
"Nestes últimos anos, o aumento da área agrícola plantada com lavouras transgênicas e o número de Plantas Geneticamente Modificadas (PGM) liberadas comercialmente reforçam a necessidade de estar atento à evolução do uso das biotecnologias e às suas consequências. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), envolvido em vários domínios desse debate, propõe, por intermédio do seu Núcleo de Estudos Agrários e de Desenvolvimento Rural (NEAD), essa publicação intitulada Transgênicos para quem? Agricultura, Ciência e Sociedade. Trata-se de uma edição sobre questões biológicas e sociais ligadas à biossegurança do transgênicos, num contexto nacional e internacional, com autores franceses e brasileiros.

O objetivo deste livro é trazer uma reflexão acerca da anunciada capacidade dos transgênicos de resolver as dificuldades atuais e futuras com as quais nossas sociedades e, particulamente, os agricultores familiares e camponeses do mundo estão confrontados. Ele é também o resultado das reflexões de certos pesquisadores, até então minoritários, que por meio da participação e vivência em comissões nacionais de engenharia genética (França) e em comissões técnicas nacionais de biossegurança (Brasil) não tiveram o poder de expressar sua oposição e tampouco interromper (em razão do voto sempre minoritário) as liberações comerciais de sementes transgênicas solicitadas pelas empresas multinacionais, embora a avaliação do risco e o respeito ao Princípio da Precaução fossem determinados no Brasil pelas leis nacionais (Lei de Biossegurança) e internacionais (Protocolo de Cartagena). A discussão se adensa com enfoques diversos sobre as limitações do reducionismo científico (até mesmo entre as próprias ciências biológicas), sobre a pertinência e a contribuição Transgênicos para quem?

Os artigos oferecem, assim, uma grande diversidade de análises e de pontos de vista de atores sociais: agricultores familiares, cientistas internacional e nacionalmente reconhecidos, estudantes, associações, cooperados, ativistas.

Pensamos ser imprescindível relatar a posição da sociedade civil, tanto no Brasil como em outros países, sobre essa nova tecnologia. Ela apresenta uma particularidade que não é das menores − cria e transforma seres vivos. De fato, os movimentos de resistência à aceitação dos transgênicos pelos consumidores europeus estão abrangendo setores da sociedade cada vez mais amplos, preocupados com a alimentação e a saúde e apoiados em várias situações, cuja pertinência não é mais necessário demonstrar, já que os riscos evoluíram para catástrofes ditas “naturais”... Assim, a sociedade civil manifesta suas preocupações e organiza-se para pesar sobre as decisões do mundo da ciência.

As inovações são consideradas por numerosas associações de pesquisadores, cidadãos, grupos de informação, fundações, sindicatos como devendo ser apropriadas quando trazem benefícios para a sociedade e para a democracia. Refutam as teses da implicação linear da ciência com a inovação, desta com a tecnologia e desta, por sua vez, com o progresso. Também defendem posições críticas em relação às escolhas definidas pelas políticas científicas, fortemente reduzidas às necessidades da tecnologia e transformadas no que hoje se desenvolve aceleradamente como tecnociência. Esses grupos reivindicam a articulação dos saberes científicos e populares entre si, no objetivo de um enriquecimento recíproco.

Felizmente, o monopólio das discussões sobre a ciência  não pertence exclusivamente aos adeptos do progresso científico e tecnológico e à tecnociência. Aliás, as controvérsias científicas sempre fizeram parte da cultura da ciência.

 Introdução

Já na década de 1950, Jacques Ellul, filósofo francês, abordava essa discussão (Le système technicien, Paris: Calman-Levy, 1977): Mais o progresso técnico cresce, mais aumenta a soma de efeitos imprevisíveis. Certos progressos técnicos criam incertezas permanentes e em longo prazo [...] Processos irreversíveis foram já implementados, particularmente no campo do meio ambiente e da saúde. Os problemas ambientais são exemplares. Criados pelo desenvolvimento tecnológico desenfreado e irrefletido, necessitam sempre de novos instrumentos e técnicas para resolvê-los. Os problemas de saúde pública ou de segurança alimentar são sistematicamente reformulados de modo que possam receber soluções técnicas ao invés de soluções políticas.

[...] O sistema técnico gera mecanismos de exclusão social devido à própria Técnica. Ele marginaliza um número crescente de homens e mulheres que perdem progressivamente a capacidade de se adaptar à sofisticação das técnicas, de seguir o ritmo do trabalho e da vida social na sociedade tecnicista (L’homme qui avait presque tout prévu [O homem que havia previsto quase tudo], Paris: Le Cherche Midi, 1977). Nestes últimos anos, o aumento da área agrícola plantada com lavouras transgênicas e o número de Plantas Geneticamente Modificadas (PGM) liberadas comercialmente reforçam a necessidade de estar atento à evolução do uso das biotecnologias e às suas consequências. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), envolvido em vários domínios desse debate, propõe, por intermédio do seu Núcleo de Estudos Agrários e de Desenvolvimento Rural (NEAD), essa publicação intitulada Transgênicos para quem? Agricultura, Ciência e Sociedade. Trata-se de uma edição sobre questões biológicas e sociais ligadas à biossegurança dos transgênicos, num contexto nacional e internacional, com autores franceses e brasileiros. O objetivo deste livro é trazer uma reflexão acerca da

anunciada capacidade dos transgênicos de resolver as dificuldades atuais e futuras com as quais nossas sociedades e, particulamente, os agricultores familiares e camponeses do mundo estão  confrontados. Ele é também o resultado das reflexões de certos pesquisadores, até então minoritários, que por meio da participação e vivência em comissões nacionais de engenharia genética (França) e em comissões técnicas nacionais de biossegurança (Brasil) não tiveram o poder de expressar sua oposição e tampouco interromper (em razão do voto sempre minoritário) as liberações comerciais de sementes transgênicas solicitadas pelas empresas multinacionais, embora a avaliação do risco e o respeito ao Princípio da Precaução fossem determinados no Brasil pelas leis nacionais (Lei de Biossegurança) e internacionais (Protocolo de

Cartagena).

 

A discussão se adensa com enfoques diversos sobre as limitações do reducionismo científico (até mesmo entre as próprias ciências biológicas), sobre a pertinência e a contribuição das ciências sociais, humanas e naturais articuladas e exigidas na abordagem de uma realidade complexa.

 

Os artigos oferecem, assim, uma grande diversidade de análises e de pontos de vista de atores sociais: agricultores familiares, cientistas internacional e nacionalmente reconhecidos, estudantes, associações, cooperados, ativistas.

Pensamos ser imprescindível relatar a posição da sociedade civil, tanto no Brasil como em outros países, sobre essa nova tecnologia. Ela apresenta uma particularidade que não é das menores − cria e transforma seres vivos. De fato, os movimentos de resistência à aceitação dos transgênicos pelos consumidores europeus estão abrangendo setores da sociedade cada vez mais amplos, preocupados com a alimentação e a saúde e apoiados em várias situações, cuja pertinência não é mais necessário demonstrar, já que os riscos evoluíram para catástrofes ditas “naturais”... Assim, a sociedade civil manifesta suas preocupações e organiza-se para pesar sobre as decisões do mundo da ciência.

 

As inovações são consideradas por numerosas associações de pesquisadores, cidadãos, grupos de informação, fundações, sindicatos como devendo ser apropriadas quando trazem benefícios para a sociedade e para a democracia. Refutam as teses da implicação linear da ciência com a inovação, desta com a tecnologia e desta, por sua vez, com o progresso. Também defendem posições críticas em relação às escolhas definidas pelas políticas científicas, fortemente

reduzidas às necessidades da tecnologia e transformadas no que hoje se  desenvolve aceleradamente como tecnociência. Esses grupos reivindicam a articulação dos saberes científicos e populares entre si, no objetivo de um enriquecimento recíproco.

 

Felizmente, o monopólio das discussões sobre a ciência não pertence exclusivamente aos adeptos do progresso científico e tecnológico e à tecnociência. Aliás, as controvérsias científicas sempre fizeram parte da cultura da ciência.

 

 

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